MANIFESTO DO CACIQUE SEATLE

Agosto 27th, 2008 by jairclopes

  

 

Quando se cogita em “doar” terras aos indígenas de Roraima num ato de “bondade” do poder público, nunca é demais lembrar o manifesto abaixo que tem mais de 150 anos, mas continua atual. Como descendente direto de índios Kaingangues, me vejo na obrigação de endossar as palavras do ilustre parente de meus antepassados.                  

 

Carta que ficou conhecida como “Manifesto do Cacique do Seatle” da tribo Duwamish, do Estado de Washington para o presidente Franklin Pierce, dos Estados Unidos, em 1855, depois de o governo ter dado a entender que pretendia comprar o território da tribo.

 

 

                        O grande chefe de Washington mandou dizer que deseja comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também de sua amizade e sua benevolência. Isto é gentil de sua parte pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade, porém, vamos pensar na sua oferta pois sabemos que se não o fizermos o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O grande chefe em Washington pode confiar no que o chefe Seatle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar nas alterações das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, não empalidece. Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é para nós estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água. Como podes então compra-las de nós? Decidimos apenas sobre nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias arenosas, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual a outro porque ele é um estranho que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, mas sim, sua inimiga, e depois de exauri-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seus pais sem remorsos de consciência, esquece a sepultura dos antepassados e o direito dos filhos, nada respeita. Sua ganância empobrecerá a terra e vai deixar atrás de si os desertos. A vista de suas cidades é um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende. Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Não ha lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende o barulho das cidades é para mim uma afronta contra meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d’agua e o cheiro do vento purificado pela chuva do meio-dia com aroma de pinho.O ar é precioso para o homem vermelho porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar - animais, árvores e homem. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo ele é insensível ao seu cheiro. Se eu me decidir a aceitar imporei uma condição: O homem branco deverá tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser certo de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como o fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão que nós matamos apenas para sustentar nossas vidas. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo está relacionado entre si. Tudo que fere a terra fere também os filhos da terra. Os nossos filhos viram seus pais serem humilhados na derrota, os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha e depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seus corpos com alimentos doces e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos nossos últimos dias, eles não são muitos. Mais alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que tem vagueado em pequenos bandos nos bosques sobrará para chorar sobre os túmulos de um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança. De uma coisa sabemos que o homem branco talvez venha um dia a descobrir: O nosso Deus é o mesmo Deus. Julgas, talvez, que O podes possuir da mesma maneira como desejas possuir a nossa terra, mas não podes. Ele é o Deus da humanidade inteira e quer bem igualmente ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele e causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo seu Criador. O homem branco também vai desaparecer talvez mais depressa que as outras raças. Continua poluindo sua própria cama e há de morrer, um dia, sufocado nos próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem a gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios faladores (telégrafos), onde ficarão os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará o adeus `a andorinha da torre e à caça, será o fim da vida e o começo da luta para sobreviver.

                        Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões de futuro que oferece às suas mentes para que possam formar os desejos para o dia de amanhã. Mas nós somos selvagens, os sonhos do homem branco são ocultos para nós e por serem ocultos temos que escolher nossos próprios caminhos. Se consentirmos é para garantirmos as reservas que nos foram prometidas. Lá talvez possamos viver os últimos dias conforme desejamos. Depois do último homem vermelho ter partido e a sua lembrança não passar de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós a amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos nossa terra ama-a como nós a amávamos, protege-a como nós a protegíamos, nunca esqueças como era a terra quando dela tomaste posse, e com toda a tua força, o teu poder, e todo o teu coração conserva-a para teus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: O nosso Deus é o mesmo Deus, esta terra é querida por Ele e nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.

 

 

 

 

VIVER FAZ MAL À SAÚDE

Agosto 24th, 2008 by jairclopes

Vivemos a era dos paradoxos. Ao tempo que somos, simultaneamente, protagonistas, objetivos, objetos, algozes, vítimas e agentes das mais extensas, intensas, constantes, abundantes, concentradas e regulares campanhas do “Seja saudável”, “Viva mais feliz”, “Libere suas energias” etc, estamos imersos no mais insalubre e nefasto dos mundos. Todos, absolutamente todos, os meios de comunicação, todos os dias, nos empurram olhos e ouvidos adentro mensagens subliminares, e a maioria nem isso, para que adotemos uma vida mais “natural” como meio de vivermos mais e mais felizes. Será isso possível? Grande maioria dos ensinamentos de como viver melhor, parte do princípio que as doenças e os males de quaisquer espécies que nos acometem têm como causa o desequilíbrio energético a que estamos sujeitos por conta da maneira “errada” de como vivemos. E que, ao eliminarmos as causas desse desequilíbrio ingressamos, automaticamente, na era da saúde. Nada de errado com esse raciocínio, não fosse ele um sofisma! (lembrando que sofisma é um raciocínio que parte de premissas verdadeiras e chega a conclusões inaplicáveis, por que falsas). Sim, por que os mesmos gurus que nos dão a receita do bem viver relacionam quais são os “agentes” causadores dos males que nos espreitam a cada esquina, e como nos expomos a eles. A relação dos agentes é por demais conhecida, mas não custa nada lembrá-la: O ar que respiramos está totalmente saturado de substâncias cancerígenas, causadoras de males respiratórios e chuva ácida que polui o solo e as plantas, além de corroer as edificações; A água que usamos para beber, lavar nossas vestes e objetos de uso pessoal, nos banhar e elaborar nossa comida contém cloro em excesso que afeta a defesa natural da pele contra agentes externos nos deixando expostos, como uma porta aberta, às mais variadas espécies de microorganismos causadores de doenças, além de, lentamente, intoxicar nosso organismo; A exposição demasiada ao sol causa câncer de pele; Protetores solares são altamente tóxicos; Decibéis em doses exageradas causam impotência e surdez; Ondas eletromagnéticas, como as de fios de alta tensão por exemplo, baixam nossa resistência imunológica natural; Sexo todo dia e/ou com parceiros(as) diferentes, além de levar ao declínio irreversível da libido, traz o risco de doenças sexualmente transmissíveis, como a AIDS; Falta de exercícios e indolência, afetam diretamente nosso metabolismo e, indiretamente, levam a obesidade que, por si só já é uma doença, mas que conduz a males outros, especialmente do coração; Excesso de exercícios sobrecarrega o pobre músculo cardíaco levando-o ao colapso; Ler, estudar ou pensar em excesso quebra o saudável equilíbrio do “mens sana in corpore sano” que deve existir entre o corpo e a mente; Os vegetais de nossa dieta alimentar estão saturados de agrotóxicos altamente danosos à saúde; Alimentos industrializados contém corantes, estabilizantes, aromatizantes, solubilizantes e outros “antes” misteriosos e perniciosos; Carne vermelha é proibida por ser de natureza contrária ao que nosso aparelho digestivo está apto a assimilar; Quaisquer espécies de gordura entopem as artérias que irrigam órgãos importantes, levando à arteriosclerose, e causam hipertrigliceridemia também; Açúcares, sejam em forma de sobremesas, balas, bombons ou adoçando refrigerantes, e até em simples cafezinhos, aumentam o risco de diabetes, são um veneno para o corpo; Carnes brancas, sejam de peixe ou de galinha, também não são recomendáveis, reduzem a expectativa de vida; Trabalho em excesso produz estresse que diminui nossas chances de resistir a ataques nefastos de vírus e bactérias; Trabalhar sempre, no mesmo lugar e do mesmo jeito causa LER, Lesão por Esforço Repetitivo; Ócio, nem pensar, entope as artérias e produz gordurinhas na cintura, que são um sinal claro de  outros problemas; Usar telefone celular expõe o usuário a ondas hertzianas malignas; Exposição aos raios catódicos da televisão ou do computador encerra enorme risco de produzir câncer; Comer muito faz mal, desnecessário dizer que não comer também; Alimentos fritos, cozidos ou defumados são peçonhentos para o sangue; Lembre-se que tanto lipídios, quanto glicídios e protídeos em exagero, podem ser fatais; Vitaminas, sais minerais e água, consumir com moderação, sob o risco de intoxicar-se; Café e ovo, proibidíssimos; A preocupação com o futuro e o presente, a ansiedade diante das incertezas materiais e imediatas, a angústia frente às grandes questões filosóficas de quem somos, de onde viemos e para onde vamos, desgastam a psique; Além disso tudo, o consumo de drogas, proibidas ou não, destroem o homem tanto física e emocional como moral e psiquicamente. Consumir anfetaminas, barbitúricos, estupefacientes, narcóticos, álcool, remédios e medicamentos, complementos alimentares e similares, tudo é péssimo para o equilíbrio dos humores corporais. Fumar, mesmo passivamente, causa câncer de cólon, pulmão e bexiga; Daí os gurus concluem que, se extinguirmos todos os elementos, alimentos, posturas, atitudes, bebidas, modus vivendi, áreas de atrito, pressões externas e internas, “venenos”, pressas, obsessões e maus pensamentos que causam estragos em nossas vidas estaremos “de bem com o mundo”, viveremos melhor e com saúde. Basta optarmos por uma vida mais simples, mais light, algo assim como a de um desiludido aborígine australiano que já estivesse completamente só no out back daquele país, e que resolvesse, por razões lá dele, tornar-se vegetariano radical e isolar-se numa caverna, protegido da luz solar para sempre. Basta vivermos sem alimentos industriais, sem água clorada, sem carne de espécie alguma, sem fogo, sem remédios, sem exposição ao sol, sem roupas, sem outro objetivo que não o de apenas sobreviver a cada dia, sem competição e sem sexo, que estaremos salvos! Basta apenas isso, cara pálida! O quê que você está esperando? Elimine para sempre “apenas” estes pequenos detalhes, e você estará melhorando em cem por cento sua qualidade de vida! Pois é, se justamente o conjunto de coisas que compõe a vida moderna a está destruindo, conclui-se que esse mesmo conjunto de coisas faz mal à saúde, ou seja, VIVER FAZ MAL À SAÚDE!

Curitiba, 15 de novembro de 2001.

JAIR CORDEIRO LOPES

FOCO ERRADO

Agosto 20th, 2008 by jairclopes

Na discussão que se seguiu após a vergonhosa derrota da seleção brasileira para os argentinos, parece que ninguém se deu conta que o que frustra o torcedor não é falta de uma medalha de ouro ou de prata. Não seria uma medalha, por dourada ou prateada que fosse, que traria satisfação maior ao brasileiro que colou os olhos na telinha e não acreditou no que viu. O que todos queriam era a derrota dos argentinos, uma vitória nossa sobre eles, por um a zero, gol de mão, em impedimento, depois do árbitro ter apitado o final da partida, vale mais, muito mais, que qualquer medalha.

O DESCANSO DO ALBATROZ

Agosto 4th, 2008 by jairclopes

(OU)

RÉQUIEM PARA UM GUERREIRO TRANQÜILO

O Albatroz, (Diomedea Exulans) uma das maiores aves voadoras do planeta - só perde em envergadura para o Condor dos Andes – é um animal que passa a maior parte da vida voando, e isso não é pouco, pois, segundo os ornitólogos, sua longevidade pode alcançar 50 anos. Dizem que esse gigante dos ares até dorme enquanto voa. Pois é, apesar dessa vocação para o vôo e capacidade quase ilimitada de manter-se no ar, chega um dia em que, já sem tônus muscular nas asas, com as penas puídas pelo tempo, sem aquela acuidade visual que lhe permitia enxergar o alimento que se movia sob as águas, falto de olfato que orienta, além de agressividade para disputar fêmeas com o macho mais novo e forte, o Albatroz se aposenta. Não obstante ter vivido literalmente no ar, procura uma ilha sossegada onde costumava nidificar nos seus melhores tempos de vigor físico e sexual, e torna-se um ermitão; alimentando-se dos restos que encontra e procurando abrigo entre pedras e arbustos; longe dos outros machos brigões. É uma aposentadoria leve e tranqüila, porquanto o pássaro longevo sente que já fez a sua parte, já cumpriu os “quadrinhos” que a natureza lhe reservou; teve filhos e deixou sua marca genética na sucessão de descendentes que agora voejam pelos ares dos mares azuis de todo hemisfério sul da terra. Sua vida profícua tem um fim silencioso e pacífico. É de se supor que este guerreiro tranqüilo e jubilado voluntário, ainda olha para os céus com saudade e orgulho do dever cumprido. As aeronaves, de um modo geral, têm um ciclo de vida parecido com o do Albatroz; nascem para o vôo, sentem-se a vontade somente nos ares e pousam apenas para as necessidades básicas como reabastecimento, troca de tripulação e manutenção; deixam “descendentes” na forma de aeronaves com tecnologia desenvolvida antes e incorporada às novas gerações. O Boeing 707, pioneiro dos aviões comerciais daquela empresa, é uma máquina que se comportou excepcionalmente bem quanto à sua vida útil; voou melhor, mais rápido e mais alto que qualquer concorrente de sua época; cruzou todos os céus do planeta transportando passageiros e cargas com lucros durante mais de quarenta anos; aprovou e desaprovou equipamentos e tecnologias que foram aproveitados ou não nas gerações Boeing 727, 737, 747 e demais; foi concebido e produzido numa época em que a Boeing tinha como lema: “Enquanto houver um avião voando manteremos a produção de peças e equipamentos”, e isso provocou um desafio na indústria aeronáutica que se manteve ativa a fim de cumprir o que prometeu; fez, com grande sucesso, a transição de aeronave de passageiros para transportadora de carga num momento em que o mercado aéreo mais necessitava desse serviço, e atendeu a demanda com notável eficiência, confiabilidade e presteza; cumpriu todos os “quadrinhos” com dignidade e sem esmorecer, mesmo quando novas gerações de aeronaves vieram, com grande vantagem, substituí-la nas lides para as quais fora concebida. Não é de estranhar que tão extraordinária máquina tenha sido objeto de desejo de ninguém menos que John Travolta que possui uma estacionada em sua porta em Malibu. É de se imaginar que a empresa Boeing deve se orgulhar de suas aeronaves, especialmente desse fantástico B-707 que nasceu nobre, riscou os céus com desenvoltura, viveu longa e proficuamente, feneceu com dignidade e se “aposentou” silencioso como um Albatroz. A tripulação, Struckel, André e este que vos escreve, teve a elevada honra de fazer o último e emocionado vôo civil de uma aeronave B-707 no Brasil, e, talvez, no mundo. O último equipamento desse modelo, o PP-BRI, acabou de ser levado para Manaus onde fez derradeiro pouso e de onde só sairá em forma de matéria prima para confecção de objetos de alumínio. Esta é uma homenagem à maneira de réquiem para uma aeronave que, a despeito de ter sido substituída nos ares por outras mais novas, jamais será substituída em nossos corações já saudosos, onde tem assento vip permanente apesar de suas idiossincrasias, humores discutíveis e “personalidade” nem sempre compreendida. JAIR. Floripa, 04/08/08.

DÁ PRÁ ENTENDER?

Julho 16th, 2008 by jairclopes

Os chineses, num inexplicável surto lusófilo, queimaram os fogos destinados à abertura dos jogos olímpicos para ver se funcionavam.

BOSSA NOVA: UMA CINQÜENTONA BONITA E ADMIRADA E SEUS DISCOS ANTOLÓGICOS

Junho 24th, 2008 by jairclopes

Neste ano em que comemoramos 50 anos de bossa nova vamos lembrar aqui de dois discos, que fizeram história e até hoje são muito procurados por colecionadores, ou não. Existem muitas histórias sobre o início da bossa nova. Enquanto alguns dizem que ela nasceu nas reuniões que um grupo de pessoas ligadas à música faziam quase que diariamente no apartamento de Nara Leão, no Rio, outras discordam dando versões diferentes, porém, por unanimidade, todos concordam que a antológica gravação de “Chega de Saudade” por João Gilberto, na Odeon, em 1958, e do LP de mesmo nome em 1959, foi na verdade o marco inicial, pois nada havia de igual ou parecido e a música brasileira nunca mais foi a mesma desde então. Em novembro de 1962 houve um polêmico concerto de bossa nova na famosa casa de espetáculos Carnegie Hall, em Nova York, que para muitos redundou em grande fracasso. Antonio Carlos Jobim, João Gilberto e Milton Banana, músicos que participaram do concerto resolveram não voltar e ficaram por lá mesmo tentando a vida, enfrentando o frio e a saudade do Rio de Janeiro, sem jamais imaginar que quatro meses depois participariam daquele que é considerado o melhor disco de bossa nova de todos os tempos. Nos dias 18 e 19 de Março de 1963, onze pessoas, nove homens e duas mulheres reuniram-se num estúdio de gravação na rua 48 Oeste, Nova York e gravaram o maravilhoso “Getz/Gilberto”, o maior disco dentro da bossa nova e jazz em todos os tempos.  As onze pessoas eram: Stan Getz, sax tenor americano muito admirado por seu lirismo ao instrumento e nem tanto por seu caráter; o pianista e compositor Antonio Carlos Jobim, diretor musical da gravação; o violonista e cantor João Gilberto considerado o criador e principal nome da bossa nova; Tião Neto, com a marcação firme e o som poderoso e redondo do seu contabaixo e Milton Banana, o nome mais importante para a bateria da bossa nova. As duas mulheres eram Astrud, mulher de João Gilberto e Mônica Getz, mulher de Stan. Os outros quatro eram Phil Ramone, dono do estúdio e engenheiro de som; Val Valentin, também engenheiro de som, o produtor de discos; Creed Taylor, da Verve Records e David Zingg, fotógrafo que mais tarde, em 1965, viria morar no Brasil definitivamente. Aliás foi para Zingg que Tom Jobim disparou uma frase que ficou famosa: “David, o Brasil não é para principiantes”. Claro que, enquanto estavam gravando eles não imaginavam o tamanho da façanha, e nem que o disco seria um divisor de águas na vida de todos os envolvidos. “Getz/Gilberto” existe há mais de 45 anos, se tornou o clássico dos clássicos dentro do jazz e bossa nova e ouvi-lo é uma experiência insuperável. E como convencer os mais jovens de que foi gravado em dois dias e ao velho estilo? Nada dessa história de primeiro gravar as bases, piano, bateria, etc para depois o cantor “botar a voz” ou o saxofonista “solar por cima”. Nada disso. Eram todos ao mesmo tempo no estúdio, tocando juntos, se um errasse tinham que parar e começar tudo de novo. Só que tinha um detalhe: Ali, ninguém era de errar. As músicas gravadas foram: Garota de Ipanema, Desafinado, Corcovado, Só Danço Samba e Vivo Sonhando, todas de Tom Jobim, Doralice, de Dorival Caymmi e Pra Machucar Meu Coração, de Ary Barroso. Garota de Ipanema foi a última gravação do primeiro dia e aconteceu ali aquilo que, por muito tempo se constituiu numa lenda dentro da bossa nova: A da dona de casa despretenciosa, que, casualmente no estúdio, foi convidada a gravar uma pequena participação e, dali, tornou-se um fenômeno de vendas no mercado norte americano. Estamos falando de Astrud Gilberto, a “Astrudinha, mulher do João” como dizia Vinicius de Moraes. Corcovado foi a primeira música a ser gravada no segundo dia e Astrud se revelou muito mais segura que no dia anterior. Terminada a gravação, Creed Taylor pagou todo mundo e engavetou a fita sem se dar conta do ouro que tinha nas mãos. Oito meses depois tirou a fita da gaveta, ouviu várias vezes, quanto mais ouvia mais gostava, particularmente das duas faixas com Astrud cantando em inglês. Então, retirando a voz de João Gilberto gravou um compacto somente com a voz de Astrud e lançou no mercado americano fazendo estrondoso sucesso com “The Girl From Ipanema”. Vale lembrar que Garota de Ipanema e Yesterday, de Lenonn e McCartney, foram as músicas mais executadas em todo século passado, havendo dúvidas somente sobre qual delas foi a primeira. Enquanto isso “Getz/Gilberto” causando terremoto permaneceu por 96 semanas em 2º lugar na lista da “Billboard”. Por que não chegou ao 1º? perguntará alguém. Porque em 1964, semana após semana o 1º lugar pertencia a algum LP dos Beatles, dos vários que foram lançados naquele ano. Mas à “Getz/Gilberto” coube uma honra que ninguém tira: A de ser o Lp de jazz mais vendido em todos os tempos. Vendido e respeitado. Com o dinheiro ganho em poucos meses com este disco Stan Getz comprou uma casa de 23 quartos. À Astrud coube 168 dólares por sua participação como convidada, o que Stan Getz achou muito. Ao saber que Getz resmungara pelo cachê pago à Astrud, seu amigo, o também sax tenor Zoot Sims, comentou: “É bom saber que o sucesso não alterou Stan. Ele continua a ser o mesmo filho da puta de sempre” Anos mais tarde João e Stan se reuniram novamente e gravaram  “Getz/Gilberto Nº 2”, porém este não chegou nem aos pés do primeiro. Outra coisa: Dos participantes do primeiro disco somente João, Astrud e Tião estão vivos.

Andradas, sul de Minas, inicio do inverno de 2008.

Joel.

 

 

 

CERVEJAS

Junho 21st, 2008 by jairclopes

Devo admitir, sou fissurado por coleções, sou aquele que se pode chamar de colecionista. Mais que um colecionador, que é a condição de quem está colecionando naquele momento, uma condição que pode ser passageira, efêmera, temporária ou até duradoura, mas de caráter provisório, o colecionista SEMPRE está colecionando, não importa o quê. Pois é, coleciono “coisas” desde muito pequeno, desde que me conheço por gente, por assim dizer. Começando pelos irrefragáveis álbuns de figurinhas, que todos os garotos colecionavam, passando por maços de cigarros vazios, tampinhas de garrafas e selos, até moedas e notas de dinheiro, coleções mais caras e trabalhosas, ou relógios de pulso, minha mais dileta coleção atual. Durante essa existência, essa peregrinação de procuras, trocas, negócios e aquisição de conhecimento, que é o que acontece com quem coleciona, acabei colecionando garrafas de cervejas brasileiras, uma verdadeira loucura. Coleciono, já faz uns trinta anos, garrafas de cervejas brasileiras cheias, com tampinhas e rótulos originais. Coleção das mais difíceis, por vários motivos. Quando se entra no mundo das coleções existe um universo de pessoas que tem o mesmo interesse, coleciona a mesma coisa, e isso facilita as trocas e negócios necessários ao bom andamento da coleção; o mundo dos colecionadores de garrafas é muito restrito, pequeno mesmo, não ultrapassa a dezena em todo o país, e é essa a dificuldade, como encontrar peças disponíveis? Como contatar outros com o mesmo interesse? Como trocar? Comprar? Outro estorvo é o peso e o volume do objeto colecionado, garrafas são desajeitadas e pesadas, além de frágeis, ao contrário, por exemplo, de rótulos cervejas, que são mais “colecionáveis” por que são fáceis de transportar, guardar, trocar, vender, comprar, enviar pelo correio etc. Assim, de garrafa em garrafa, de procura em procura, adquiri um acervo de mais de quinhentas peças, entre clássicas garrafas de 600 ml e “long ndecks” de 300 ou 330 ml, até algumas menos comuns 500 e 1000 ml. Que fazer com esse acervo agora que estou mudando de uma casa térrea para um apartamento? De uma moradia com espaço externo capaz de comportar centenas de garrafas a um apartamento menor? Descobri que mais espinhoso que procurar peças raras é se desfazer delas. O universo restrito dos colecionadores de garrafas não é aberto, nós não conhecemos uns aos outros, e, quando encontramos o nosso par, verificamos que é um êmulo, não é solidário, não nos quer “ajudar” no nosso problema, com raras e honrosas exceções. Devido ao apreço que desenvolvemos pela coleção, decorrente do tempo e do trabalho que despendemos ao longo das procuras e atividades necessárias a consecução de um acervo, nós temos dificuldade em nos desfazer das peças. A história de cada peça faz com que nos afeiçoemos a ela. O ideal do colecionista é vender toda a coleção para um único interessado, seja uma entidade ou uma pessoa. Não consegui qualquer interessado no acervo total de minhas garrafas, quando muito, um negociante ou atravessador sem boas intenções fez oferta abaixo do desprezível por peças que valiam muitas vezes o valor oferecido. Sendo assim, coloquei minhas garrafas à venda, uma a uma, no Mercado Livre. Com grande dor no coração vejo as peças cheias de história, serem dispersas pelo Brasil, e cairem em mãos as quais não sei se as tratarão com o respeito e a reverência que merecem pelo que representam. É uma decisão necessária mas dolorosa, pois, mesmo que separadas, as peças sobreviverão, mas a coleção estará desfigurada, dividida, dissolvida, talvez para sempre. JAIR, Floripa, 21/06/08.

DE PERNAS PARA O AR

Junho 17th, 2008 by jairclopes

Três jovens moradores de favela do Rio de Janeiro foram assassinados depois de torturados, supostamente, por traficantes de uma favela que não era aquela na qual moravam. A “comunidade” da favela dos rapazes revoltou-se e encurralou tropas do exército frente ao Comando Leste daquela cidade, porque divulgou-se que os jovens haviam sido detidos por militares - um tenente, três sargentos e sete soldados - para averiguação e, posteriormente, levados até o morro onde impera uma quadrilha rival, e soltos numa rua qualquer de lá. Agora vem um Ministro da República, um delegado e outras autoridades à imprensa fazer declarações “indignadas” contra os militares pelo “crime de assassinato” cometido por eles, admitindo, implícitamente, que é normal que as quadrilhas de um morro matem moradores de outro. Autoridades que parecem ignorar que as pessoas que protestavam junto ao quartel dos militares estavam ali a mando dos traficantes da área, incomodados com a presença de tropas no morro onde se constrói obras populares, em que os operários e os materiais têm suas existências asseguradas pelas presença dessas tropas. Será que perdi a capacidade de entender as coisas? Será que meu discernimento está embotado de tanto ler na imprensa as atrocidades cometidas no dia-a-dia, que não consigo perceber quem são os criminosos? Salvo uma mudança na ética e no espírito da lei que deve imperar no Código Penal, me parece que criminoso é quem comete crime, não é mesmo? Criminosos são aqueles que torturaram e mataram os jovens, não os militares que os deixaram livres, mesmo contra a vontade deles, num bairro e rua onde não moravam. As autoridades, incluindo o Ministro da República, deveriam estar preocupados em identificar e prender os verdadeiros criminosos, e não fazer blá-blá-blá frente às câmeras posando de bonzinhos para angariarem simpatia de um público-gado que consome televisão como se suas matérias estivessem acima do bem e do mal. Pobre País que pauta sua conduta por posições demagógicas de autoridades esdrúxulas e matérias jornalísticas destinadas apenas a instigar emoções baratas. A lógica das coisas está de pernas para o ar, e não é compreensível para qualquer cidadão medianamente informado. Por favor, vamos falar sério, não é assim que vai se levar a bom termo o ataque à violência, qualquer que seja ela. Não é invertendo o enfoque que se preserva a legalidade e se trava as batalhas necessárias nessa guerra civil, disfarçada de combate ao crime. PAREM ESTE PAÍS QUE EU QUERO DESCER! Jair, Floripa, 17/06/08.

AMAZÔNIA

Junho 5th, 2008 by jairclopes

O descaso e a incompetência com que o Estado Brasileiro trata o desmatamento criminoso e a venda irregular de terras para estrangeiros suscitam uma pergunta incômoda: “Amazônia, apenas nós vamos devastá-la ou devemos permitir que estrangeiros também o façam?

A TRANSMUTAÇÃO

Junho 5th, 2008 by jairclopes

O atentado ao World Trade Center em onze de setembro de 2001 marcou a entrada do milênio com o estigma mais perverso e infame que se tem notícia na história deste século. Face a hediondez e covardia do evento e as conseqüências funestas que dele adviram, como as guerras subseqüentes, OSAMA tornou-se o nome mais citado pela imprensa e o mais odioso em todo o mundo civilizado. O planeta já não era seguro e OSAMA era o agente vivo e temido dessa insegurança. Agora, sete anos depois, a substituição de uma letra: “B” no lugar do “S”, traz a transmutação mais radical e salutar que se pode imaginar. A confirmação de BARAK OBAMA pelo Partido Democrático para candidato, com grande chances de vitória, para presidente dos EUA, torna esse mesmo planeta amedrontado, cheio de esperança e confiança num futuro pacífico. OBAMA é o paladino que substitui OSAMA, o funesto. JAIR, Floripa 05/06/08.