MANIFESTO DO CACIQUE SEATLE
Agosto 27th, 2008 by jairclopes
Quando se cogita em “doar” terras aos indígenas de Roraima num ato de “bondade” do poder público, nunca é demais lembrar o manifesto abaixo que tem mais de 150 anos, mas continua atual. Como descendente direto de índios Kaingangues, me vejo na obrigação de endossar as palavras do ilustre parente de meus antepassados.
Carta que ficou conhecida como “Manifesto do Cacique do Seatle” da tribo Duwamish, do Estado de Washington para o presidente Franklin Pierce, dos Estados Unidos, em 1855, depois de o governo ter dado a entender que pretendia comprar o território da tribo.
O grande chefe de Washington mandou dizer que deseja comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também de sua amizade e sua benevolência. Isto é gentil de sua parte pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade, porém, vamos pensar na sua oferta pois sabemos que se não o fizermos o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O grande chefe em Washington pode confiar no que o chefe Seatle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar nas alterações das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, não empalidece. Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é para nós estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água. Como podes então compra-las de nós? Decidimos apenas sobre nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias arenosas, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual a outro porque ele é um estranho que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, mas sim, sua inimiga, e depois de exauri-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seus pais sem remorsos de consciência, esquece a sepultura dos antepassados e o direito dos filhos, nada respeita. Sua ganância empobrecerá a terra e vai deixar atrás de si os desertos. A vista de suas cidades é um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende. Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Não ha lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende o barulho das cidades é para mim uma afronta contra meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d’agua e o cheiro do vento purificado pela chuva do meio-dia com aroma de pinho.O ar é precioso para o homem vermelho porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar - animais, árvores e homem. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo ele é insensível ao seu cheiro. Se eu me decidir a aceitar imporei uma condição: O homem branco deverá tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser certo de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como o fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão que nós matamos apenas para sustentar nossas vidas. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo está relacionado entre si. Tudo que fere a terra fere também os filhos da terra. Os nossos filhos viram seus pais serem humilhados na derrota, os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha e depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seus corpos com alimentos doces e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos nossos últimos dias, eles não são muitos. Mais alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que tem vagueado em pequenos bandos nos bosques sobrará para chorar sobre os túmulos de um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança. De uma coisa sabemos que o homem branco talvez venha um dia a descobrir: O nosso Deus é o mesmo Deus. Julgas, talvez, que O podes possuir da mesma maneira como desejas possuir a nossa terra, mas não podes. Ele é o Deus da humanidade inteira e quer bem igualmente ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele e causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo seu Criador. O homem branco também vai desaparecer talvez mais depressa que as outras raças. Continua poluindo sua própria cama e há de morrer, um dia, sufocado nos próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem a gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios faladores (telégrafos), onde ficarão os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará o adeus `a andorinha da torre e à caça, será o fim da vida e o começo da luta para sobreviver.
Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões de futuro que oferece às suas mentes para que possam formar os desejos para o dia de amanhã. Mas nós somos selvagens, os sonhos do homem branco são ocultos para nós e por serem ocultos temos que escolher nossos próprios caminhos. Se consentirmos é para garantirmos as reservas que nos foram prometidas. Lá talvez possamos viver os últimos dias conforme desejamos. Depois do último homem vermelho ter partido e a sua lembrança não passar de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós a amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos nossa terra ama-a como nós a amávamos, protege-a como nós a protegíamos, nunca esqueças como era a terra quando dela tomaste posse, e com toda a tua força, o teu poder, e todo o teu coração conserva-a para teus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: O nosso Deus é o mesmo Deus, esta terra é querida por Ele e nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.
